Espaço: o novo campo de batalha económico, tecnológico e estratégico da Europa

Espaço: o novo campo de batalha económico, tecnológico e estratégico da Europa

Há muito que a corrida ao espaço deixou de estar no campo da ficção, mas atualmente e com cenários bélicos emergentes esta competição entrou numa nova fase. Mais do que uma questão de exploração científica ou de prestígio nacional, governos, investidores e forças militares olham agora para a órbita terrestre como um domínio estratégico para a segurança, a economia e a soberania tecnológica.

Nuno Patrício - RTP / Adicionar como fonte informativa
O espaço apresenta-se agora como um dos mercados mais disputados do século XXI. | Créditos fotográficos NASA

Na Europa, o aumento dos gastos com defesa está a impulsionar a indústria espacial, mas também a expor fragilidades estruturais face aos Estados Unidos e à China.

O espaço apresenta-se agora como um dos mercados mais disputados do século XXI. Satélites de observação da Terra, comunicações seguras, sistemas de navegação, vigilância militar e até capacidades de defesa orbital passaram a integrar as prioridades estratégicas das principais potências mundiais.

De acordo com o relatório recente da Agência Espacial Europeia (ESA), divulgado na segunda-feira, os investimentos governamentais europeus, no setor espacial cresceram 12% em 2025, atingindo os 13,5 mil milhões de euros. Um aumento que contrasta com a tendência mundial, onde os gastos públicos com atividades espaciais caíram 3%, fixando-se nos 119 mil milhões de euros.
A explicação está nos novos investimentos na área da defesa. A guerra na Ucrânia, o aumento das tensões geopolíticas e as preocupações com a segurança europeia levaram vários governos a reforçar significativamente os seus orçamentos militares, com reflexos diretos na economia espacial.

A Alemanha assumiu a posição mais ambiciosa, anunciando planos para investir 35 mil milhões de euros em segurança e defesa espacial até 2030. Já a França prepara um reforço adicional de 4,2 mil milhões de euros para programas espaciais militares entre 2026 e 2040. 

Também relacionado com esta área, o primeiro-ministro português, no passado dia 8 de julho durante a cimeira da NATO, em Ancara, anunciou que Portugal deverá atingir até ao final deste ano um investimento equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em Defesa e áreas relacionadas com a segurança.

Segundo a ESA, a Europa foi um dos principais motores do aumento global da despesa militar, que atingiu os 2,9 biliões de dólares em 2025 (dados da ESA).

Contudo, o mesmo relatório cita pesquisas da OCDE e do Fundo Monetário Internacional onde chama a atenção de que "maiores gastos com defesa não levam necessariamente a um crescimento econômico duradouro". O verdadeiro impacto económico dependerá sempre da capacidade de estimular a inovação, harmonizar normas e promover projetos industriais conjuntos.

A grande preocupação europeia não está apenas no volume de investimento, mas também na capacidade para transformar esse investimento numa indústria mais forte e competitiva.

Segundo a ESA, a Europa enfrenta uma desvantagem estrutural importante: ao contrário dos Estados Unidos ou da China, o mercado europeu está amplamente aberto à concorrência internacional.

"O mercado europeu é acessível a praticamente todas as indústrias espaciais do mundo", refere o relatório da ESA. Embora os clientes europeus representem cerca de 67% do mercado disponível na região, não existem mecanismos de preferência significativa para fornecedores europeus.

O resultado é uma situação paradoxal: enquanto o mercado europeu está aberto à concorrência externa, as empresas europeias enfrentam barreiras significativas para entrar noutros mercados.

A ESA estima que mais de 80% do mercado mundial de lançamentos e fabrico de satélites, avaliado em cerca de 75 mil milhões de euros, continua praticamente inacessível para muitos operadores europeus, devido a políticas nacionais de compras públicas ou à dominância de empresas integradas como a norte-americana SpaceX.

Outro sinal de alerta surge no financiamento privado.

Enquanto os investimentos globais em empresas espaciais aumentaram 60% em 2025, alcançando um valor recorde de 11,7 mil milhões de euros, as startups e empresas espaciais europeias registaram uma queda de 8% no capital captado, ficando-se pelos 1,4 mil milhões de euros.

Para muitos analistas, esta diferença ameaça aumentar o fosso tecnológico entre a Europa e os seus principais concorrentes internacionais.


Um "espaço" civil com maior apetência militar 
Durante décadas, o espaço foi visto sobretudo como uma plataforma para ciência, telecomunicações e observação da Terra. Hoje, a realidade é diferente.

Os especialistas apresentam agora o espaço como um domínio operacional tão importante quanto a terra, o mar ou o ar. Satélites fornecem informações de inteligência, comunicações militares seguras, sistemas de precisão bélica e vigilância permanente dos movimentos adversários.

O espaço é cada vez mais central para as operações militares e para a dissuasão, mas a Europa continua a depender fortemente dos Estados Unidos para muitas das suas capacidades espaciais militares.

Apesar dos avanços registados nos últimos anos, os países europeus ainda não dispõem de uma verdadeira arquitetura operacional conjunta para a defesa espacial. Existem sim projetos relevantes, como a constelação de comunicações seguras IRIS², o programa europeu de alerta antecipado EYE e iniciativas da NATO como o Strategic Space Situational Awareness System (SSAS), mas a coordenação operacional continua fragmentada.
Rumo a uma defesa espacial europeia?
O debate atual vai além dos satélites ou dos lançamentos comerciais. Pela primeira vez, discute-se abertamente a necessidade de uma capacidade europeia de defesa espacial.

Prova desses desenvolvimentos são os programas nacionais que a França, Alemanha e Reino Unido estão a desenvolver, no sentido de capacitar operarações num ambiente espacial cada vez mais competitivo e potencialmente hostil. 

A França pretende mesmo possuir capacidade para inspecionar e neutralizar ameaças em órbita baixa já em 2027, e a Alemanha aposta em armas de energia dirigida (lazer e eletromagnetismo) e sistemas não cinéticos. Já o Reino Unido estuda capacidades contraespaciais, tanto em órbita como a partir da superfície.

Contudo, os especialistas num artigo publicado pelo site de notícias ligadas ao espaço SpaceNews, defendem que estes esforços continuam a ser isolados e "excessivamente" nacionais. A ausência de uma estratégia europeia integrada pode gerar duplicação de investimentos e perda de eficiência.

A solução poderá passar por um modelo semelhante ao adotado noutros domínios da defesa europeia: alianças flexíveis entre vários países, partilha de capacidades e especialização tecnológica. Uma abordagem que permitiria à Europa reduzir a dependência dos Estados Unidos sem romper a cooperação transatlântica.

Com o espaço está a transformar-se rapidamente num dos principais palcos da competição global, a próxima década poderá determinar se o continente europeu consegue afirmar-se como uma potência espacial independente ou se continuará a depender, em larga medida, da tecnologia e das infraestruturas desenvolvidas por outros atores globais.




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